eis que venho profetizar desilusões!
pois no futuro somente isso haverá!
e isso é o que nos faz seguir!
nunca nada acontece como planejamos!
e assim espero que continue!
imagina quão chato seria??
se tudo desse certo?
por isso desejo que tudo de errado!
tudo aconteça ao contrario do que aparentemente deveria acontecer!
pois se não fosse assim, não seria vida!
domingo, 11 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Cigarros Úmidos por Pelotas
Bom pessonhas, o Felipe me convidou pra ser autor no blog dele e eu, sem perder tempo, aceitei. O cara escreve tri bem e vai ser legal dividir esse espaço.
Aliás, A-zal foi uma expressão "criada" por nós em algum momento carraspano de alguma noite estranha, então tá tudo em casa.
Meu primeiro post vai ser esse meu conto. Ando perambulando por aí mas não tem lugar como Pelotas, como meus amigos de lá. Aliás, um grande abraço pessoal!
Enfim, ao conto...
Pelotas...
Em quais outras noites esses raros episódios poderiam acontecer? Em quais cimentos, gessos e azulejos estariam estampados todos esses índios, anjos, querubins e toda a sorte de figuras exóticas? Em quais praças estariam hospedados esses corpos de mármore, gentes de pedra que traduzem, pela admiração, tempos passados. Em que espaço tanta arquitetura? Tanta gente em opostos? Tantos cães em volta de um caminhante?
1) A decisão e duas características do personagem
Em um domingo desses, despropositados de qualquer discurso, sai pra caminhar pelo centro da cidade. Era perto da uma da tarde quando pensei nas ruas XV de Novembro vazia, General Osório suja e Alberto Rosa carregada de janelas fechadas; e isso me deu uma empolgação prematura de pensar sobre as coisas.
Sempre fui muito impulsivo. Impulsivo e infatigável; Um exemplo? Vídeolocadora:
- Tu já locaste esse filme, Tiago. Quer escolher outro?
- Não, não... Vou levar ele... De novo.
2) O teatro, os gatos e o amigo
Quantas vezes já havia feito isso? Mas nesse domingo o intuito era diferente, a metodologia a mesma, admito. Resumindo, quando passei na frente do Teatro Guarany não fiquei horas olhando pra sua fachada nem pra todos aqueles índios que nunca foram paraninfos, nem oradores das formaturas piegas que acontecem naquele teatro. Atravessei a rua e fiquei tentando convencer a dois gatos esqueléticos que estavam na janela de uma casa que eu não era uma ameaça. Logo que me aproximei deles, o maior e com menos costelas à vista desapareceu num pulo, deixando seu companheiro pra trás, que reconheço, só ficou ali cerca de mais 5 segundos porque o coitado não tinha um dos olhos e foi difícil se desvencilhar das grades. Fiquei ali mais um tempo pra ver se eles se acostumavam com a minha presença e se aproximassem, acendi um cigarro e me sentei nos degraus da porta da casa, até eu me senti acolhedor, mas não os gatos... Me levantei e fui procurar um telefone público pra conversar com um amigo, Bruno Kauss, que além de estar empolgado com a faculdade de Direito, está um pouco receoso com as mudanças que Pelotas está impelindo na sua vida. Muito acolhedor como sempre, me convidou pra tomar um café. Conversamos sobre os fatos de sempre: o rumo das coisas, o evento estranho convencionado relacionamento e sobre pessoas adoráveis e saudosas de outras cidades. Em consenso, decidimos sair do seu apartamento, apesar do silêncio, o diálogo implícito nas nossas ações desajeitadas era:
- Cara, temos que achar alguma coisa nessa cidade pra quem não é daqui.
- Não adianta cara. Só quem nasceu em Pelotas é acolhida por ela, digo, por sua essência. Mas vamos lá, fumar um cigarro vai ser legal, no mínimo úmido.
3) O cigarro, a igreja e um comentário do Bruno
Seguimos em direção a Catedral e pelo caminho não falamos muito, apenas fumamos um cigarro que tinha completa conotação de um brinde por termos saído de casa. Quando chegamos à Igreja, o cigarro tinha terminado, assim como a empolgação pra falar o de sempre. Então nos sentamos em um dos bancos da pracinha que tinha ali e, enquanto eu observava um homem que estava muito compenetrado em uma aparente missão de admirar o prédio, Bruno pensava em como seria apropriado ter uma câmera pra fotografar o mesmo homem.
A admiração do tal homem não era de se espantar, afinal, a Catedral São Francisco de Paula maravilha até os pelotenses com o seu enorme esplendor e não estou falando apenas da parte externa, o interior da construção é de uma sofisticação digna de admiração, o Senhor Aldo Locatelli e todos os artistas daquela época vindoura pra cidade, sabiam surpreender. Não que os artista contemporâneos não sejam bons, mas realmente não me apraz estudar em um instituto de artes e ver, todas as noites, punhados de tampinhas de refrigerantes pendurados pelo teto, com um bando de gente colorida na volta dizendo “isso me dá vontade de não tomar mais Coca-cola”.
Enfim, foi quando o homem veio até nós e disse “uma festa aqui dentro ia ser bacana, não acham?” que tentamos lhe retribuir a simpatia com um sorriso que era mais forçado que a iniciativa da Prefeitura de exigir que os prédios históricos mantenham suas fachadas originais e fomos embora; sabe, a idéia é ótima, exceto pelo fato de os comerciantes taparem o prédio com enormes outdoors cheios de anúncios de promoções. Ao deixar o homem-outdoor com suas possíveis frustrações, Bruno fez o comentário mais inteligente que ouvi nos últimos tempos; nas suas palavras ele disse: “Os velhos de hoje em dia não acreditam na estética, não acha?” Discordei na mesma hora, argumentando que acho que eles se preocupam é demais com ela, vestem-se como jovens e falam de festas em igrejas centenárias. Mas ele tinha toda a razão. A explicação do seu ponto de vista que veio a seguir também foi genial: “quando somos jovens, temos a estética do esticado, nossa pele, nossos dias e nossas mentiras insignificantes; e, sem dúvida, há uma graça quase pura nisso. Mas a estética mais bucólica, vem dos mais velhos, eles exalam poesia só com sua imagem, são em suas mãos enrugadas, cabelos brancos e atitudes serenas que está a verdadeira pureza do belo. O problema é que os velhos de hoje vivem misturando as coisas. E aí tudo fica vago. Na verdade, cômico”. Depois de ouvi-lo, minha única reação foi acender outro cigarro pra ele, e um pra mim, um brinde ao Bruno.
4) Outros amigos e a moça de pernas tortas
Um dos nossos prazeres, por assim dizer, era ir ao porto, comprar um martelinho de cachaça com butiá no bar Katangas, onde um gorila simpaticíssimo a preparava, deixava curtir em umas garrafas pet e nos vendia, mas, como tudo em Pelotas, o lugar virou modinha e agora não dá nem pra ter uma conversa bêbada agradável, pois os sons daquele bando de caturritas que agora freqüentam o lugar é tão insuportável quanto o som de seus carros. Mesmo assim, decidimos ir pra lá, era domingo, nublado e um tanto frio, pensamos que o lugar ia estar meio vazio, só com os maconheiros de sempre, mas esses não incomodam, exceto quando têm uma idéia genial que, normalmente, são impossíveis de pôr em prática, e se exaltam como as outras caturritas, mas isso são só momentos, logo voltam a viajar quietinhos.
Porém, nosso plano foi deixado de lado quando encontramos três amigos, bons amigos, na verdade. Eram Gustavo, Tom e Bruna. Estavam na frente do Café Aquariu’s (sim, com apóstrofo e s), o lugar mais inclassificável da cidade, trata-se de um estabelecimento onde, geralmente aos domingos, senhores já de idade bastante avançada encontram-se com outros da mesma espécie para contar como foi monótona e sem novidades a semana passada. No encontro, a festa de sempre, com os cumprimentos característicos de cada um. Gustavo com seu “e aí caras”; Tom com o seu lacônico “oi” e Bruna com uma lambida na cara, nojenta, porém espirituosa. Engraçado, mas acabamos nos sentando em uns bancos do outro lado da rua e conversando exatamente sobre quão monótona e infrutífera foi a semana passada.
Para evitar aborrecimentos, saímos todos a caminhar em direção à Avenida Bento Gonçalves, o eterno lar dos sem cigarros. Ao chegar, seguimos sistematicamente ao bar Pássaro Azul, pedimos uma caipira, a mesma caipira que o dono do lugar fica visivelmente perturbado ao nos servir. Tenho a impressão nítida de que qualquer dia ele vai nos dizer “Porra! Uma caipira pra 4, 6, 10 pessoas? Não querem pedir uma dúzia de cervejas, não? Só pra variar.” Seja como for, a caipira se foi e ligamos pro Pedro, um amigo que certamente saiu de algum roteiro dos cineastas undergrounds americanos dos anos 70. Com tamanha empolgação a nos atender, nos sentimos obrigados a lhe encontrar no caminho. Foi próximo aos espelhos do prédio da “Igreja Capitalista dos Santos Internacionais Curadores Milagrosos de Todos os Dias” que o encontramos. Voltamos fazendo festinha pelo mesmo caminho de volta ao bar. Cinco jovens de bom humor e com idéias alcoólicas, que divertido!
Já perto do bar passou uma mulher, uma mulher digna de alguns detalhes. Ela tinha coxas tão grandes que seu caminhar parecia uma dança, ela não era deficiente física nem nada, apenas uma pelotense genuína, com um casacão chique e calças modistas, daquelas que os adolescentes dizem “adoro vê-las arrumando essas calças na academia”. Quando ela passou por nós, todos tentaram disfarçar, falar de outra coisa, não olhar; mas foi em vão. Soltei uma gargalhada tão alta que garanto que o pastor da Igreja Capitalista... Conjurou algum descarrego pra exorcizar algum demônio que teria no corpo daquele pecador na rua; daí ninguém mais conseguiu segurar o riso, o Pedro foi pra frente do grupo e começou a imitar o andar grotesco da mulher de pernas tortas, Bruna e eu fizemos o mesmo, foi a diversão da gurizada e a piada pro resto da noite de caipiras no Bar Pássaro Azul. Fiquei com um pouco de pena dela, mas depois da quarta caipira, já tava chamando ela de “quinze pras três”, afinal, se seus pés fossem ponteiros de relógio...
5) Tio Emílio
Já era quase onze horas quando a maior parte do pessoal lembrou que tinham alguma prova ou seminário pra fazer de manhã. Eu também tinha, Bruno também tinha, mas sabíamos que já estávamos um tanto quando tontos pra estudar, ler ou qualquer coisa que necessite dos olhos abertos e estáticos. Enfim, foram todos embora e ficamos Bruno e eu decidindo o que comprar pra tomar no caminho, em consenso, um quentão. A nossa intenção primeira, era descer pro centro pela Rua Santa Cruz, mas quando nos levantamos e aquela falta de chão nos pés nos fez repensar sobre o percurso. Andamos dez passos, atravessamos a Avenida e sentamos em uma pracinha entre a Brigada Militar e o Mcdonalds. Tomamos nosso quentão em um gole.
- Pelo menos as bebidas de lá são boas, o contrário dos lanches, mas ainda prefiro comer lá a comer um Mac lanche feliz, triste de ruim desse Mcdonalds.
Traduzindo do idioma estranho em que falei, esperando começar uma dessas conversas políticas chatas que só pessoas sem chão sabem proporcionar, mas olhei pro lado e o Bruno não tava dando a mínima pro que eu tava falando, ele tava interagindo com a estátua que tinha ali. Era Emílio Mason. Patrono da Brigada ou qualquer um desses cargos que garantem um monte de puxa sacos em volta. O Bruno tava usando seu senso de humor carraspano.
- Tio Emílio-do-Bica-Pau-Amarelo, o zenhor não fica, as vezes, com vontade de atravezar a rua e brincar naquele... no barquinho daquela merda?
Esse diálogo sinto-me inapto a traduzir.
- Olha só, Diago. Nem o Zeu Emílio aqui atura aquelas crianzas com zelular do barquinho.
Rimos bastante do... com... para o tio Emílio. Mas já eram onze e meia e eu tinha ônibus a meia noite. Então, apoiados um no outro, voltamos para o trajeto inicial. O Bruno não lembro, mas creio ter ficado em casa. Pois na parada, acompanhado por alguns velhinhos simpáticos e cansados do baile, eu esperava o ônibus enquanto eles esperavam o coche. Éramos residentes de dois mundos distantes que respiravam a mesma umidade, que a essa altura, se confundia com a fumaça do meu último cigarro.
Aliás, A-zal foi uma expressão "criada" por nós em algum momento carraspano de alguma noite estranha, então tá tudo em casa.
Meu primeiro post vai ser esse meu conto. Ando perambulando por aí mas não tem lugar como Pelotas, como meus amigos de lá. Aliás, um grande abraço pessoal!
Enfim, ao conto...
Pelotas...
Em quais outras noites esses raros episódios poderiam acontecer? Em quais cimentos, gessos e azulejos estariam estampados todos esses índios, anjos, querubins e toda a sorte de figuras exóticas? Em quais praças estariam hospedados esses corpos de mármore, gentes de pedra que traduzem, pela admiração, tempos passados. Em que espaço tanta arquitetura? Tanta gente em opostos? Tantos cães em volta de um caminhante?
1) A decisão e duas características do personagem
Em um domingo desses, despropositados de qualquer discurso, sai pra caminhar pelo centro da cidade. Era perto da uma da tarde quando pensei nas ruas XV de Novembro vazia, General Osório suja e Alberto Rosa carregada de janelas fechadas; e isso me deu uma empolgação prematura de pensar sobre as coisas.
Sempre fui muito impulsivo. Impulsivo e infatigável; Um exemplo? Vídeolocadora:
- Tu já locaste esse filme, Tiago. Quer escolher outro?
- Não, não... Vou levar ele... De novo.
2) O teatro, os gatos e o amigo
Quantas vezes já havia feito isso? Mas nesse domingo o intuito era diferente, a metodologia a mesma, admito. Resumindo, quando passei na frente do Teatro Guarany não fiquei horas olhando pra sua fachada nem pra todos aqueles índios que nunca foram paraninfos, nem oradores das formaturas piegas que acontecem naquele teatro. Atravessei a rua e fiquei tentando convencer a dois gatos esqueléticos que estavam na janela de uma casa que eu não era uma ameaça. Logo que me aproximei deles, o maior e com menos costelas à vista desapareceu num pulo, deixando seu companheiro pra trás, que reconheço, só ficou ali cerca de mais 5 segundos porque o coitado não tinha um dos olhos e foi difícil se desvencilhar das grades. Fiquei ali mais um tempo pra ver se eles se acostumavam com a minha presença e se aproximassem, acendi um cigarro e me sentei nos degraus da porta da casa, até eu me senti acolhedor, mas não os gatos... Me levantei e fui procurar um telefone público pra conversar com um amigo, Bruno Kauss, que além de estar empolgado com a faculdade de Direito, está um pouco receoso com as mudanças que Pelotas está impelindo na sua vida. Muito acolhedor como sempre, me convidou pra tomar um café. Conversamos sobre os fatos de sempre: o rumo das coisas, o evento estranho convencionado relacionamento e sobre pessoas adoráveis e saudosas de outras cidades. Em consenso, decidimos sair do seu apartamento, apesar do silêncio, o diálogo implícito nas nossas ações desajeitadas era:
- Cara, temos que achar alguma coisa nessa cidade pra quem não é daqui.
- Não adianta cara. Só quem nasceu em Pelotas é acolhida por ela, digo, por sua essência. Mas vamos lá, fumar um cigarro vai ser legal, no mínimo úmido.
3) O cigarro, a igreja e um comentário do Bruno
Seguimos em direção a Catedral e pelo caminho não falamos muito, apenas fumamos um cigarro que tinha completa conotação de um brinde por termos saído de casa. Quando chegamos à Igreja, o cigarro tinha terminado, assim como a empolgação pra falar o de sempre. Então nos sentamos em um dos bancos da pracinha que tinha ali e, enquanto eu observava um homem que estava muito compenetrado em uma aparente missão de admirar o prédio, Bruno pensava em como seria apropriado ter uma câmera pra fotografar o mesmo homem.
A admiração do tal homem não era de se espantar, afinal, a Catedral São Francisco de Paula maravilha até os pelotenses com o seu enorme esplendor e não estou falando apenas da parte externa, o interior da construção é de uma sofisticação digna de admiração, o Senhor Aldo Locatelli e todos os artistas daquela época vindoura pra cidade, sabiam surpreender. Não que os artista contemporâneos não sejam bons, mas realmente não me apraz estudar em um instituto de artes e ver, todas as noites, punhados de tampinhas de refrigerantes pendurados pelo teto, com um bando de gente colorida na volta dizendo “isso me dá vontade de não tomar mais Coca-cola”.
Enfim, foi quando o homem veio até nós e disse “uma festa aqui dentro ia ser bacana, não acham?” que tentamos lhe retribuir a simpatia com um sorriso que era mais forçado que a iniciativa da Prefeitura de exigir que os prédios históricos mantenham suas fachadas originais e fomos embora; sabe, a idéia é ótima, exceto pelo fato de os comerciantes taparem o prédio com enormes outdoors cheios de anúncios de promoções. Ao deixar o homem-outdoor com suas possíveis frustrações, Bruno fez o comentário mais inteligente que ouvi nos últimos tempos; nas suas palavras ele disse: “Os velhos de hoje em dia não acreditam na estética, não acha?” Discordei na mesma hora, argumentando que acho que eles se preocupam é demais com ela, vestem-se como jovens e falam de festas em igrejas centenárias. Mas ele tinha toda a razão. A explicação do seu ponto de vista que veio a seguir também foi genial: “quando somos jovens, temos a estética do esticado, nossa pele, nossos dias e nossas mentiras insignificantes; e, sem dúvida, há uma graça quase pura nisso. Mas a estética mais bucólica, vem dos mais velhos, eles exalam poesia só com sua imagem, são em suas mãos enrugadas, cabelos brancos e atitudes serenas que está a verdadeira pureza do belo. O problema é que os velhos de hoje vivem misturando as coisas. E aí tudo fica vago. Na verdade, cômico”. Depois de ouvi-lo, minha única reação foi acender outro cigarro pra ele, e um pra mim, um brinde ao Bruno.
4) Outros amigos e a moça de pernas tortas
Um dos nossos prazeres, por assim dizer, era ir ao porto, comprar um martelinho de cachaça com butiá no bar Katangas, onde um gorila simpaticíssimo a preparava, deixava curtir em umas garrafas pet e nos vendia, mas, como tudo em Pelotas, o lugar virou modinha e agora não dá nem pra ter uma conversa bêbada agradável, pois os sons daquele bando de caturritas que agora freqüentam o lugar é tão insuportável quanto o som de seus carros. Mesmo assim, decidimos ir pra lá, era domingo, nublado e um tanto frio, pensamos que o lugar ia estar meio vazio, só com os maconheiros de sempre, mas esses não incomodam, exceto quando têm uma idéia genial que, normalmente, são impossíveis de pôr em prática, e se exaltam como as outras caturritas, mas isso são só momentos, logo voltam a viajar quietinhos.
Porém, nosso plano foi deixado de lado quando encontramos três amigos, bons amigos, na verdade. Eram Gustavo, Tom e Bruna. Estavam na frente do Café Aquariu’s (sim, com apóstrofo e s), o lugar mais inclassificável da cidade, trata-se de um estabelecimento onde, geralmente aos domingos, senhores já de idade bastante avançada encontram-se com outros da mesma espécie para contar como foi monótona e sem novidades a semana passada. No encontro, a festa de sempre, com os cumprimentos característicos de cada um. Gustavo com seu “e aí caras”; Tom com o seu lacônico “oi” e Bruna com uma lambida na cara, nojenta, porém espirituosa. Engraçado, mas acabamos nos sentando em uns bancos do outro lado da rua e conversando exatamente sobre quão monótona e infrutífera foi a semana passada.
Para evitar aborrecimentos, saímos todos a caminhar em direção à Avenida Bento Gonçalves, o eterno lar dos sem cigarros. Ao chegar, seguimos sistematicamente ao bar Pássaro Azul, pedimos uma caipira, a mesma caipira que o dono do lugar fica visivelmente perturbado ao nos servir. Tenho a impressão nítida de que qualquer dia ele vai nos dizer “Porra! Uma caipira pra 4, 6, 10 pessoas? Não querem pedir uma dúzia de cervejas, não? Só pra variar.” Seja como for, a caipira se foi e ligamos pro Pedro, um amigo que certamente saiu de algum roteiro dos cineastas undergrounds americanos dos anos 70. Com tamanha empolgação a nos atender, nos sentimos obrigados a lhe encontrar no caminho. Foi próximo aos espelhos do prédio da “Igreja Capitalista dos Santos Internacionais Curadores Milagrosos de Todos os Dias” que o encontramos. Voltamos fazendo festinha pelo mesmo caminho de volta ao bar. Cinco jovens de bom humor e com idéias alcoólicas, que divertido!
Já perto do bar passou uma mulher, uma mulher digna de alguns detalhes. Ela tinha coxas tão grandes que seu caminhar parecia uma dança, ela não era deficiente física nem nada, apenas uma pelotense genuína, com um casacão chique e calças modistas, daquelas que os adolescentes dizem “adoro vê-las arrumando essas calças na academia”. Quando ela passou por nós, todos tentaram disfarçar, falar de outra coisa, não olhar; mas foi em vão. Soltei uma gargalhada tão alta que garanto que o pastor da Igreja Capitalista... Conjurou algum descarrego pra exorcizar algum demônio que teria no corpo daquele pecador na rua; daí ninguém mais conseguiu segurar o riso, o Pedro foi pra frente do grupo e começou a imitar o andar grotesco da mulher de pernas tortas, Bruna e eu fizemos o mesmo, foi a diversão da gurizada e a piada pro resto da noite de caipiras no Bar Pássaro Azul. Fiquei com um pouco de pena dela, mas depois da quarta caipira, já tava chamando ela de “quinze pras três”, afinal, se seus pés fossem ponteiros de relógio...
5) Tio Emílio
Já era quase onze horas quando a maior parte do pessoal lembrou que tinham alguma prova ou seminário pra fazer de manhã. Eu também tinha, Bruno também tinha, mas sabíamos que já estávamos um tanto quando tontos pra estudar, ler ou qualquer coisa que necessite dos olhos abertos e estáticos. Enfim, foram todos embora e ficamos Bruno e eu decidindo o que comprar pra tomar no caminho, em consenso, um quentão. A nossa intenção primeira, era descer pro centro pela Rua Santa Cruz, mas quando nos levantamos e aquela falta de chão nos pés nos fez repensar sobre o percurso. Andamos dez passos, atravessamos a Avenida e sentamos em uma pracinha entre a Brigada Militar e o Mcdonalds. Tomamos nosso quentão em um gole.
- Pelo menos as bebidas de lá são boas, o contrário dos lanches, mas ainda prefiro comer lá a comer um Mac lanche feliz, triste de ruim desse Mcdonalds.
Traduzindo do idioma estranho em que falei, esperando começar uma dessas conversas políticas chatas que só pessoas sem chão sabem proporcionar, mas olhei pro lado e o Bruno não tava dando a mínima pro que eu tava falando, ele tava interagindo com a estátua que tinha ali. Era Emílio Mason. Patrono da Brigada ou qualquer um desses cargos que garantem um monte de puxa sacos em volta. O Bruno tava usando seu senso de humor carraspano.
- Tio Emílio-do-Bica-Pau-Amarelo, o zenhor não fica, as vezes, com vontade de atravezar a rua e brincar naquele... no barquinho daquela merda?
Esse diálogo sinto-me inapto a traduzir.
- Olha só, Diago. Nem o Zeu Emílio aqui atura aquelas crianzas com zelular do barquinho.
Rimos bastante do... com... para o tio Emílio. Mas já eram onze e meia e eu tinha ônibus a meia noite. Então, apoiados um no outro, voltamos para o trajeto inicial. O Bruno não lembro, mas creio ter ficado em casa. Pois na parada, acompanhado por alguns velhinhos simpáticos e cansados do baile, eu esperava o ônibus enquanto eles esperavam o coche. Éramos residentes de dois mundos distantes que respiravam a mesma umidade, que a essa altura, se confundia com a fumaça do meu último cigarro.
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